A obesidade é hoje reconhecida como uma doença crônica, multifatorial e progressiva, associada a aumento significativo do risco cardiometabólico, redução da qualidade de vida e maior mortalidade. Diante da rápida evolução das terapias farmacológicas e do acúmulo robusto de evidências científicas, a ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica) publicou, em 2026, sua nova Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, trazendo recomendações claras, atualizadas e baseadas em evidências.
Este artigo resume os principais pontos da diretriz, com foco prático para a clínica e para a tomada de decisão individualizada.
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Obesidade: muito além do IMC
A diretriz reforça que o IMC isoladamente não deve ser o único critério para indicação de tratamento farmacológico. Embora o ponto de corte clássico continue sendo:
• IMC ≥ 30 kg/m², ou
• IMC ≥ 27 kg/m² com comorbidades relacionadas à adiposidade, a avaliação clínica deve incluir:
• Circunferência da cintura
• Distribuição de gordura corporal
• Presença de doenças cardiometabólicas
• Impacto funcional e qualidade de vida
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Tratamento farmacológico sempre associado ao estilo de vida
Um dos pilares centrais da diretriz é que nenhuma medicação deve ser utilizada de forma isolada. O tratamento farmacológico deve ser concomitante às intervenções no estilo de vida, incluindo:
• Mudança alimentar estruturada
• Redução do sedentarismo
• Estímulo à atividade física regular
• Acompanhamento nutricional contínuo
Essa abordagem combinada potencializa a perda de peso, melhora marcadores cardiometabólicos e reduz o risco de deficiências nutricionais a longo prazo.
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Metas de perda de peso: individualização é a regra
A diretriz orienta que, para a maioria dos pacientes, uma perda de peso ≥ 10% já está associada a benefícios clínicos relevantes. No entanto, a meta deve ser individualizada, considerando:
• Idade
• Comorbidades
• Histórico ponderal (peso máximo atingido na vida)
• Risco de sarcopenia
• Sustentabilidade do tratamento
O conceito de “obesidade controlada” e de peso máximo atingido na vida (PMAV) também passa a ser valorizado como parâmetro clínico, e não apenas o peso atual.
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Fármacos de alta potência: protagonismo dos agonistas de GLP-1 e duplo agonismo
A diretriz reconhece que medicamentos de alta potência para perda de peso apresentam maior impacto nos desfechos clínicos e na qualidade de vida. Entre eles, destacam-se:
• Semaglutida
• Tirzepatida
Esses fármacos são recomendados, especialmente, em pacientes com:
• Diabetes tipo 2
• Doença cardiovascular aterosclerótica
• Insuficiência cardíaca
• Doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD/MASH)
• Apneia obstrutiva do sono
• Osteoartrite de joelho
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O que não é recomendado: segurança em primeiro lugar
A diretriz é enfática ao não recomendar:
• Uso de sibutramina em pacientes com doença cardiovascular
• Medicamentos sem evidência robusta de eficácia e segurança
• Fórmulas magistrais e produtos manipulados contendo:
• Hormônios tireoidianos
• Diuréticos
• Esteroides anabolizantes
• hCG
Essas práticas não apenas carecem de evidência científica, como também oferecem riscos importantes à saúde.
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Obesidade, envelhecimento e sarcopenia: um alerta essencial
Um dos avanços relevantes da diretriz é a atenção especial aos pacientes:
• Com mais de 60 anos, ou
• Com risco ou presença de sarcopenia
Nesses casos, o tratamento farmacológico deve ser obrigatoriamente associado a:
• Treinamento de força
• Aporte proteico adequado
• Monitoramento da massa muscular e funcionalidade
O objetivo não é apenas perder peso, mas preservar capacidade funcional, autonomia e qualidade de vida.
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Conclusão
A Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade – ABESO 2026 marca uma mudança definitiva de paradigma:
tratar obesidade é tratar uma doença crônica, com ciência, segurança e individualização.
Mais do que prescrever medicamentos, o foco passa a ser:
• Escolher o fármaco certo
• Para o paciente certo
• No momento certo
• Com acompanhamento contínuo
Esse é o caminho para resultados sustentáveis e clinicamente relevantes.
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Referências bibliográficas
1. ABESO – Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica.
Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade – 2026.
Documento em preparação. ?
2. Brouwers MC, Kho ME, Browman GP, et al.
AGREE II: advancing guideline development, reporting and evaluation in health care.
CMAJ. 2010;182(18):E839–E842.
3. European Society of Cardiology (ESC).
ESC Clinical Practice Guidelines – Guidelines development and writing.
POR: Dra. Joise Wottrich
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